A pequena
cidade cheira a fuligem e pó. O ar pesado desce como um manto denso cobrindo as
casas, as árvores e tudo mais que possa alcançar. Durante a noite é impossível
enxergar o outro lado da rua, com tantas volutas de pó e sujeira que se
dissipam vagarosamente pelo céu escuro. O cheiro de óleo que exala das chaminés
das fábricas e o apito anunciam que é chegada a hora dos operários retornarem às
suas casas... Ouvem-se ao longe os sons dos freios de ferro guinchando nas
rodas, os estrondos e os grandes silvos. Quem completar primeiro a volta toda
da praça é o campeão! O último a chegar é a mulher do padre! A garotada sai em
disparada pelo calçamento de pedra. Vem, corre Alice! A noite está escura e o
filete de lua minguante postado no alto do céu mal dá para ver o que está à
frente. Alice, com suas pernas curtas e finas, desembesta numa corrida
alucinada. Havia ficado muito para trás e precisava diminuir a diferença. Olha
para todos os lados a fim de constatar se alguma criança está próxima a ela,
mas não há ninguém. Apavorada com aquela imensa escuridão e com o ar pesado
subindo como uma bolha de gás no calor dos faróis, Alice corre como se tivesse
asinhas nas pernas. Quando termina todo o percurso, vê todas as outras crianças sentadas no banco da praça degustando um saboroso picolé. Apontavam o dedo
em sua direção: Ah! Ah! Ah! Até que enfim o gafanhoto apareceu, diziam às gargalhadas. Gafanhoto, eu?
Será por causa dessas minhas pernas finas e desengonçadas? Mas o que é um
gafanhoto, afinal? Pelo que eu sei é uma praga que devasta plantações.
Puxa! E eu agora sou um gafanhoto, malquisto e indesejado no meio de um bando
de andorinhas. Pensa Alice. Foi então que ela percebeu que aquela disputa não
passara de uma armadilha, um engodo, engendrado pela prima para humilhar ‘a boneca
de caixa’. As crianças na verdade não haviam andado nem até o meio da
praça...
Ao deitar
em sua cama naquela noite Alice recosta a cabeça no travesseiro,
aconchegando-se bem no canto da cama e chora. Um choro miúdo, comprido,
contido. Relembra aquelas palavras de deboche, sorvendo-as como álcool e vidro quebrado, último
dente da agonia. Naquele momento aquela, criança que só queria brincar, cresce e decide
atravessar o mundo sem dar um só passo. Põe seus sonhos num navio e os joga ao
mar. Com as mãos úmidas sente a areia arranhando o azul que escorre por entre
seus dedos. Dedos de mar. E então Alice descobre que pode levar sua vida
entre os sonhos sonhados e os sonhos reais sem abrir mão de sua essência. Separa as
pedras que havia ajuntado durante tanto tempo e começa a escrever poemas...
Sai menina!
Carrega teus sonhos
debaixo do braço
vai pelos caminhos
com esse sorriso listrado
do gato de Alice
Leva tuas lembranças
enfrenta teus medos
aquece o coração
para voar livre leve solta
nas asas da borboleta
Sai menina!
Carrega teus sonhos
debaixo do braço
vai pelos caminhos
com esse sorriso listrado
do gato de Alice
Leva tuas lembranças
enfrenta teus medos
aquece o coração
para voar livre leve solta
nas asas da borboleta


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